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Ser igual aos outros músicos é o sonho maior de Eduardo Gontijo, de 24 anos. Não vai ser fácil para Dudu do Cavaco, porém, permanecer no mesmo patamar dos colegas. Sua carreira solo promete ser ainda mais especial. Na verdade, o jovem está prestes a se tornar o primeiro músico com síndrome de Down no Brasil (e talvez no mundo) a lançar um CD. Na próxima sexta-feira, às 19h, no estúdio Na Trilha, na Serra, ele estreia um pocket show como líder do grupo Dudu do Cavaco e Banda. Haverá também exibição de um trecho do documentário ‘No compasso do amor’, a respeito de sua trajetória, com assinatura do estúdio Na Trilha Produções.

No curta, Dudu do Cavaco é visto à frente da bateria no Sambódromo, ajudando a abrir o desfile das escolas de samba campeãs do Rio de Janeiro. Em outra cena, o estreante toca chorinho no palco da Rio Scenarium, numa apresentação que deixa o público emocionado. Em mais de 20 shows fora de Minas, em nove estados, ele já se apresentou ao lado de Jota Quest, Monobloco e Thiago Delegado. Em Belo Horizonte, Dudu costuma tocar no Trem dos Onze, com outros 10 músicos.

Nenhum desses encontros seria mais marcante do que tocar cavaquinho para Chico Buarque, num intervalo de jogo do Polytheama, o time do cantor, em fevereiro último, no Rio de Janeiro. “Foi um encontro informal entre músicos. Dudu ficou muito emocionado, e Chico Buarque o tratou de igual para igual. O respeito mútuo que existiu entre os dois foi singular”, observa a produtora Lilian Machado, do estúdio que prepara o documentário a respeito do cavaquinista. “Ele é o mais disciplinado entre os músicos do Na Trilha Produções. Já chega para gravar com repertório definido, músicas ensaiadas e o tom certo”, elogia o produtor musical Marcio Brant, que ainda busca patrocínio para completar o orçamento do filme.

Chico e Dudu já se encontraram no passado. Um dos maiores compositores brasileiros, Chico Buarque já havia sido procurado para autografar o cavaquinho do Dudu, confeccionado sob medida para seus dedos pelo luthier Mario Machado. Mais tarde, a assinatura de Chico no instrumento ganharia a companhia das de Hamilton de Holanda, Jorge Aragão e Alcione. “Tenho duas músicas do Chico no meu repertório, ‘Cotidiano’ e ‘Pelas tabelas’, mas essas são bem facinhas”, afirma Dudu do Cavaco, que não tira onda da proximidade com o letrista de olhos ardósia. Com a pureza característica dos portadores de Down, explica que há composições mais complicadas de Chico. “Não sei tocar outras músicas. Estou treinando”, entrega.

O cavaquinho é o instrumento que Eduardo mais gosta de tocar, mas não é o único. Ele também toca pandeiro, banjo e repique e se refere ao instrumento preferido como o “meu neném”. “O cavaquinho é responsável pela autonomia cada vez maior conquistada pelo Eduardo. Ele hoje já é famoso, mas só recentemente aprendeu a atravessar a rua sozinho e a tomar um táxi para voltar dos shows”, diz Leonardo Gontijo, de 36 anos, empresário, irmão e maior incentivador da carreira, autor do livro ‘Mano Down, relatos de um irmão apaixonado’. Com base no tema superação, ele e o irmão já encabeçaram mais de 70 palestras motivacionais no país.

Formado em engenharia civil e em direito, o professor universitário Gontijo passou a ser chamado de “irmão do Dudu do Cavaco”. A situação era impensável no nascimento de Eduardo, quando ele foi diagnosticado com uma mutação no par de cromossomos 21. Em razão da herança genética, estava fadado ao fracasso, tendo sido rejeitado em 17 escolas da capital. “Se os pais não tiverem um projeto de vida para o deficiente, ele vai se acomodar, já que ninguém espera nada dele. Dudu se tornou uma referência e está ajudando a quebrar uma série de preconceitos existentes em relação a portadores da síndrome”, afirma o irmão, que se prepara para lançar o terceiro livro sobre a relação com Dudu, agora voltado para a fase da juventude e do desenvolvimento da carreira artística dele.

Que ninguém duvide das aspirações de Dudu do Cavaco. Sua última novidade foi manifestar publicamente a vontade de tocar para o Rei Roberto Carlos, que, assim como Chico, costuma ser avesso a esse tipo de homenagem. Em seus shows, uma das canções de maior repercussão na plateia é a consagrada ‘Como é grande o meu amor por você’. “Gosto de fazer a galera chorar. Quando estou tocando, pego minha emoção e jogo no cavaquinho”, conta ele, apontando para o instrumento deitado no colo. “Através dele, jogo minha emoção para todo o mundo”, diz. Nos shows, ele faz isso, literalmente, unindo os dedos em forma de coração. Em seguida, improvisa uma flecha e lança os gestos em direção às garotas mais belas da plateia. Dudu é mesmo especial.

Fonte: Sandra Kiefer (Estado de Minas)