A política e a sociedade brasileira andam distantes a ponto de acharmos que uma não foi feita para a outra. Não que a política nacional não seja responsável pela vida dos brasileiros e suas ações não impactem diretamente no seu cotidiano: “tudo é política”. O problema todo está no caleidoscópio que a sociedade usa para enxergar as decisões, tomadas nos palácios, e em seus porões, que afetam sua vida diariamente. O brasileiro ainda não entende como funcionam república, democracia e política.

Administrar um país com dimensões continentais, uma população absolutamente desigual em renda e educação e com problemas estruturais que não são sanados adequadamente, é um desafio para qualquer pessoa, e um campo fértil para ideias equivocadas e apaixonadas para resolução dos nossos maiores obstáculos por parte da população comum. A dificuldade e a responsabilidade trazem discursos sérios, cômicos, absurdos do ponto de vista prático, céticos, oportunistas, etc, que precisam ser observados cautelosamente.

Com a ampliação da Internet e a democratização do acesso à informação – e à desinformação através de notícias falsas, a histórica falta de interesse do brasileiro pela política mostrou uma de suas faces cegas: a crença que vivemos num embate de discursos e práticas exclusivos entre esquerda e direita. Claro que esses posicionamentos ideológicos existem e influenciam a política em diversos países do mundo há séculos, porém a importância dada a somente dois lados deveria nos incomodar. Temos no Brasil mais de trinta partidos políticos registrados. Nesse cenário, é possível acreditar que estamos diante de somente dois times disputando a bola?

A ignorância nos leva a atacar e defender pessoas de acordo com a afiliação ideológica dela. Um exemplo bem recente é a derrota de Fernando Haddad nas últimas eleições municipais em São Paulo. Grande parte do seu eleitorado votou nele por estar a esquerda do campo e, grande parte dos votos de Doria foram conseguidos por este se posicionar a direita. Uma perigosa polarização, catapultada nas redes sociais, com perigosas consequências, pois esqueceram quem é e foi a pessoa Haddad, o prefeito Haddad, o ministro Haddad, apenas por ele estar de um lado. A mesma coisa podemos dizer sobre João Doria: empresário, gestor, etc.

No Império do Brasil (1822 – 1889), momento mais importante da consolidação da nação brasileira, os discursos giravam em torno do partido conservador e do partido liberal, com origens e planos aparentemente distintos. O livro A construção da ordem: elite política imperial, de José Murilo de Carvalho, esclarece esse momento importante do século XIX em que as falas e as práticas eram aparentemente distintas, mas os interesses das elites agrárias da época ditavam a direção dos políticos de ambos os partidos. Como disse o deputado Holanda Cavalcanti na época: “nada mais parecido com um saquarema (conservador) do que um luzia (liberal) no poder”.

Por mais que a nossa república deite sobre a democracia representativa, separada em partidos, a política é feita por homens aliados a interesses – bons e ruins, e assim também são os eleitores. Devemos lembrar que o petista Luiz Inácio Lula da Silva, até ser eleito para presidente, condenava práticas do tucano Fernando Henrique Cardoso como chefe do Executivo, porém adotou muitas das mesmas práticas para nortear a economia, em seus dois mandatos, por estas estarem funcionando bem para a população.

Não há discurso ideológico que se mantenha intacto quando o bem-estar de quase 200 milhões de pessoas está em jogo. Quase uma ideia aristotélica da política. Há mais de uma década, o programa bolsa-família é desonestamente atacado por partidos como DEM e PSDB, independentemente de dados concretos que mostram que o programa funciona. Isso acontece pelo programa ter sido realizado pelo partido do outro lado. Banco Mundial, FMI e ONU já aconselharam a países adotarem políticas sociais parecidas. Imagine quantos brasileiros passariam fome se nos guiássemos apenas por embates ideológicos? Diversos programas sociais continuam funcionando, mesmo após o impeachment de Dilma Rousseff e a chegada da oposição tucana e democrata nos ministérios.

Há que se distanciar aqui da concepção humana de Hobbes para não cairmos na ideia de que todos os políticos são corruptos e que vendem suas ideias quando chegam ao poder. Da mesma maneira que nós, eleitores, estamos querendo o melhor para nós e nossa comunidade, há políticos, tanto na esquerda, como na direita, ou que fluem em diferentes posicionamentos, querendo o melhor para os brasileiros e devemos nos orientar mais pelo que essas pessoas propõem do que apenas por afinidade ideológica. Os recentes escândalos de corrupção, sendo investigados no Brasil, precisam ser vistos como verdadeiro aprendizado pelos eleitores brasileiros, para entendermos como funciona o sistema e a política. Não caberá aqui aprofundar esse tema, mas uma reflexão maior sobre a informação que vemos na imprensa e na rede, os agentes políticos e seus programas partidários nos levaria a um amadurecimento na participação democrática e, a longo prazo, a um sistema mais preocupado com o bem-estar da população e o funcionamento eficaz das instituições. Essa “guerra fria” entre “comunas” e “coxinhas” deveria ficar apenas no mundo virtual e fora das urnas.